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Opinião

Thiago Barbosa Soares é analista do discurso, escritor e professor da UFT.

Thiago Barbosa Soares é analista do discurso, escritor e professor da UFT. Foto: Divulgação

Foto: Divulgação Thiago Barbosa Soares é analista do discurso, escritor e professor da UFT. Thiago Barbosa Soares é analista do discurso, escritor e professor da UFT.

Na contemporaneidade, assiste-se a um fenômeno inquietante nos mais diversos campos da vida pública, da política à comunicação corporativa, do jornalismo ao entretenimento. A velha máxima de que a confiança constrói-se lentamente, mediante a consistência e a transparência, parece ter cedido espaço a um imperativo imediatista: o da performance. A questão que se coloca, contudo, é se credibilidade e performance podem coexistir ou se a ênfase excessiva na segunda está, sistematicamente, a corroer a primeira.

A performance, entendida como a capacidade de gerar resultados rápidos, encenar competência e produzir espetáculo, tornou-se a moeda corrente da atenção. Redes sociais, ciclos de notícias de 24 horas e a cultura do “like” recompensam gestos teatrais, frases de efeito e ações de alto impacto visual, independentemente da sua sustentabilidade ou veracidade. Neste ecossistema, o político que dramatiza uma obra em um vídeo de trinta segundos, o executivo que maquia números para impressionar acionistas ou o influenciador que exibe um estilo de vida inalcançável são frequentemente celebrados como bem-sucedidos.

No entanto, a credibilidade opera em outro registro. Ela é fruto de uma relação de longo prazo baseada em previsibilidade, ética e correspondência entre discurso e prática. A credibilidade não se fotografa; sente-se na ausência de surpresas negativas, na confiança silenciosa de que a palavra dada será honrada. Ao privilegiar a performance, a sociedade atual corre o risco de eleger líderes e instituições brilhantes no palco, mas frágeis nos bastidores. A desconexão entre o que se mostra e o que se é, entre o resultado imediato e o processo íntegro, gera um ciclo perverso: cada nova performance espetacular exige a seguinte, aumentando a pressão por encenações cada vez mais ousadas até que o desmoronamento da verdade se torne inevitável.

Observa-se, na prática, que a performance sem credibilidade é um artifício insustentável. Escândalos financeiros, fake news desmascaradas e promessas eleitorais não cumpridas são exemplos clássicos do preço cobrado quando o “parecer” supera o “ser”. O público, embora momentaneamente seduzido pelo brilho da performance, tende a punir com rigor a quebra da confiança. A memória institucional e o instinto de sobrevivência social, por mais pressionados que estejam, ainda valorizam a coerência.

Por outro lado, acreditar que a credibilidade prescinde totalmente da performance seria ingênuo. Num mundo saturado de estímulos, mesmo a postura mais ética precisa de visibilidade. A questão não é eliminar a performance, mas reequilibrar a balança: a performance deve servir à credibilidade, e não o contrário. Líderes e organizações que demonstram, com ações verificáveis, que seu espetáculo é apenas a ponta visível de um processo sólido e honesto conseguem construir o que há de mais raro na atualidade: uma reputação à prova de crises.

Portanto, a relação entre credibilidade e performance na era atual não precisa ser de antagonismo, precisa ser de subordinação (palavra indesejada recentemente) criteriosa. A sociedade precisa reaprender a distinguir o ator do personagem, o resultado maquiado da conquista genuína. Enquanto a performance for vista como um fim em si mesma, a credibilidade continuará em risco. Quando, porém, a performance tornar-se mera expressão de uma substância confiável, ter-se-á dado um passo decisivo para restaurar a confiança nas instituições e nas pessoas. Até lá, o público assistirá, cético, no melhor dos cenários, ao eterno duelo entre o que brilha e o que dura.

*Thiago Barbosa Soares é analista do discurso, escritor e professor da Universidade Federal do Tocantins (UFT).