O que são os papéis sociais e o como seu poder agregador funciona? Como pergunta norteadora, ela pede uma descida à sociologia. Domênico De Masi, sociólogo italiano especializado em trabalho e ócio, descreveu, em diversos textos, como o desempenho de um determinado tipo de ocupação produtiva foi um verdadeiro faro no processo de desenvolvimento civilizacional. Se o caçador, no período da pedra lascada, detinha uma função para com o grupo no qual vivia, ele possuía certas prerrogativas, uma vez que provia a maior parte da alimentação. Mais do que isso, ele era visto como um caçador, alguém capaz rastrear, encontrar e trazer, na maioria das vezes, proteína animal. Aos coletores de frutos, De Masi, também lembra que por mais que desempenhassem um papel significativo, ainda ficavam subvalorizados em relação aos caçadores, já que esses, por vezes, arriscavam a própria vida.
Diante desse panorama histórico, cabe agora indagar: o que restou, nas sociedades atuais, daquela força agregadora que os papéis sociais outrora possuíam? O observador atento percebe que a rigidez com que caçador e coletor viam seus destinos atrelados a suas funções cedeu lugar a uma fluidez sem precedentes. Na modernidade líquida, para evocar um conceito caro a Zygmunt Bauman, sociólogo polonês, os sujeitos transitam por múltiplas posições ao longo do mesmo dia, da mesma semana, da mesma vida. Um sujeito pode gerir uma empresa pela manhã, atender como voluntário em uma instituição de caridade à tarde e dedicar a noite a uma prática espiritual ou artística. Nenhuma dessas atividades reivindica a totalidade de sua identidade; nenhuma delas exige que ele se veja, antes de tudo, como o papel que ali desempenha.
Essa dissociação entre ser e fazer revela uma mutação profunda na psicologia social contemporânea. Já não se acredita, como outrora, que o trabalho defina o homem ou que a função determine o caráter. Pelo contrário, difunde-se a ideia de que o indivíduo é maior, mais complexo e mais contraditório do que qualquer papel que ocupe. Consequência direta desse deslocamento: os papéis sociais passaram a ser encarados como vestimentas que se veste e se despe conforme a ocasião, não como tatuagens profundas na alma. Um mesmo trabalhador pode ser simultaneamente pai, filho, síndico, usuário de redes sociais, cliente bancário, morador de um bairro e torcedor de um clube e transitar entre essas posições sem que nenhuma delas provoque fissuras em sua coerência interna.
Resta saber, então, se essa maleabilidade não compromete o propósito original dos papéis sociais. Afinal, para que serviam eles? Serviam para organizar expectativas, reduzir incertezas, distribuir tarefas e conferir previsibilidade às interações humanas. Quando o caçador saía para a caça, todos sabiam o que esperar; quando retornava com alimento, sua posição no grupo se reafirmava. O papel funcionava como um atalho cognitivo e social. Hoje, porém, a pergunta que se impõe é: ainda é necessário identificar-se profundamente com um papel para que ele cumpra essa função organizadora? A evidência empírica e a experiência cotidiana sugerem que não. Um motorista de aplicativo pode executar perfeitamente seu trabalho, levar passageiros do ponto A ao ponto B com segurança e cortesia, sem que jamais pense em si mesmo como “um motorista”. Para ele, aquilo é uma atividade temporária, talvez um bico, talvez uma transição. Ainda assim, o serviço é prestado, o passageiro chega ao destino, o dinheiro circula. O papel funcionou, mesmo sem adesão identitária.
É verdade, no entanto, que para certos grupos e contextos a lógica identitária ainda persiste. Um sacerdote, um bombeiro, uma médica sem fronteiras, para esses, o papel social frequentemente exige entrega pessoal, vocação (ou pelo menos um forte senso vocacional) e um senso de missão que ultrapassa o mero desempenho funcional. Em comunidades tradicionais, como aldeias indígenas ou ordens religiosas, o papel ainda pode soldar-se à psique de modo semelhante ao descrito por De Masi. Reconhecer essa exceção não invalida a tese geral, mas a nuance: a flexibilidade predomina nas sociedades urbanas e secularizadas, ao passo que a rigidez identitária sobrevive em nichos onde a própria existência do grupo depende da adesão incondicional de seus membros.
Mais ainda: a flexibilidade contemporânea permite que um mesmo indivíduo desempenhe papéis contraditórios ao longo do tempo e essa contradição, longe de paralisá-lo, muitas vezes o enriquece. O empresário que milita em causas ambientais, o policial que escreve poesia, a juíza que frequenta rodas de samba: todos demonstram que a psique humana comporta sobreposições que o modelo tradicional de papel social não previa. O sociólogo observa, assim, que a pergunta “papéis sociais ainda funcionam?” merece menos uma resposta binária do que uma reformulação. Funcionam, sim, mas de modo diverso: funcionam como dispositivos práticos, não como camisas de força identitárias. Perderam o poder de colar-se à alma, porém, conservam o poder de ordenar a vida coletiva, desde que se aceite que sua eficácia não depende mais da crença profunda de quem os executa.
Portanto, em última análise, o que se desenha é um modelo pós-dramático de organização social. Nos palcos das antigas tragédias gregas, o ator que vestia a máscara do herói tornava-se, por alguns instantes, o herói. Na vida contemporânea, ao contrário, o sujeito pode vestir a máscara do papel social sem confundir-se com ela e retirá-la ao fim da jornada com a mesma naturalidade. Se essa evolução representa uma perda (a da certeza identitária) ou um ganho (o da liberdade performática), é questão que cada época responderá à sua maneira. O que já não se sustenta, contudo, é a antiga exigência de que o papel social devore a pessoa. O propósito inicial de coordenar ações e estabelecer expectativas mantém-se; a forma de habitá-lo, porém, tornou-se mais rarefeita, múltipla e, sobretudo, descolada da própria essência do indivíduo.
*Thiago Barbosa Soares é analista do discurso, escritor e professor da Universidade Federal do Tocantins (UFT).

