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Opinião

Foto: Divulgação

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O mais recente Relatório de Riscos Globais 2026, publicado pelo Fórum Econômico Mundial, revela uma transformação profunda na dinâmica econômica internacional. Os principais riscos globais deixaram de se concentrar exclusivamente em crises financeiras tradicionais e passaram a envolver fatores climáticos, geopolíticos, sociais e informacionais. O relatório identifica o confronto geoeconômico como a principal preocupação global, impulsionado pela fragmentação do comércio internacional, disputas estratégicas entre países, restrições comerciais e vulnerabilidades nas cadeias globais de suprimentos.   Em um cenário marcado por instabilidade permanente, negócios sustentáveis deixam de ser apenas uma pauta reputacional e passam a representar elemento central de sobrevivência econômica e competitividade internacional.

No Brasil, poucos setores sentirão essa transformação de forma tão intensa quanto o agronegócio. Responsável por parcela significativa do Produto Interno Bruto, das exportações e da geração de empregos, o agro brasileiro está diretamente exposto tanto às oportunidades quanto aos riscos da nova economia climática. Eventos extremos, escassez hídrica, alterações no regime de chuvas e aumento da temperatura já afetam produtividade, logística, armazenamento e previsibilidade das safras.  Ao mesmo tempo, mercados consumidores internacionais passaram a exigir maior rastreabilidade socioambiental das cadeias produtivas, pressionando produtores e empresas exportadoras a demonstrarem conformidade ambiental, governança territorial e redução de emissões de carbono.

Essa mudança também alcança o sistema financeiro global. As normas IFRS S1 e IFRS S2 - padrões internacionais voltados à divulgação de riscos climáticos e de sustentabilidade nas demonstrações financeiras - já começaram a ser incorporadas ao ambiente regulatório brasileiro pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e pelo Banco Central.  Na prática, isso significa que fatores como emissões de gases de efeito estufa, vulnerabilidade climática, regularidade ambiental e capacidade de adaptação passarão a influenciar diretamente acesso a crédito, custo de financiamento e atração de investimentos. O agronegócio, por sua relevância econômica e ambiental, estará no centro desse processo de reavaliação de riscos.

Ao mesmo tempo, o setor enfrenta um desafio interno igualmente complexo: conciliar produção, sustentabilidade e segurança jurídica em meio a um ambiente político e regulatório frequentemente instável. Questões relacionadas à regularização fundiária, licenciamento ambiental, uso da água, rastreabilidade da produção e integração de bases de dados territoriais tornaram-se fatores estratégicos para manutenção da competitividade internacional. Em um mercado cada vez mais orientado por métricas ambientais, produtores e empresas que conseguirem estruturar modelos sustentáveis de governança e adaptação climática terão maior capacidade de acessar mercados, reduzir vulnerabilidades e captar investimentos vinculados à transição verde.

A tendência para os próximos anos é que o agronegócio brasileiro deixe de ser avaliado apenas por produtividade e escala de exportação, passando também a ser medido pela capacidade de adaptação a riscos climáticos, eficiência ambiental e governança territorial. Em um cenário global marcado por pressão regulatória, disputas comerciais e transformação climática acelerada, vantagem competitiva dependerá cada vez mais da antecipação estratégica. O futuro do agro brasileiro provavelmente será definido menos pela expansão territorial e mais pela inteligência produtiva, segurança jurídica, inovação tecnológica e construção de negócios sustentáveis capazes de transformar risco climático em oportunidade econômica.

*Wellington Magalhães é juiz de direito, diretor adjunto da Escola Superior da Magistratura Tocantinense, coordenador do Centro Judiciário de Solução de Conflitos Ambientais e Fundiários, mestre em Direito Constitucional (Portugal), doutor em Desenvolvimento Regional, Políticas Públicas e Efetividade da Prestação Jurisdicional (UFT) e pós-doutorando em Inteligência Artificial e Justiça Ambiental (USP).