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Opinião

Renata Machado Lima Donnici é especialista em compliance regulatório e ambiental

Renata Machado Lima Donnici é especialista em compliance regulatório e ambiental Foto: Divulgação

Foto: Divulgação Renata Machado Lima Donnici é especialista em compliance regulatório e ambiental Renata Machado Lima Donnici é especialista em compliance regulatório e ambiental

Quase todo mundo já descartou um medicamento vencido no lixo comum ou no vaso sanitário sem pensar duas vezes. O problema é que aquilo que parece um gesto simples dentro de casa pode gerar impactos ambientais e sanitários muito maiores do que imaginamos.

Durante muitos anos, o debate sobre resíduos farmacêuticos ficou restrito às indústrias, hospitais e laboratórios. Mas a realidade mudou. Hoje, uma parcela significativa desses resíduos é gerada dentro das próprias residências.

São comprimidos esquecidos em gavetas, xaropes vencidos, antibióticos interrompidos antes do prazo correto e, mais recentemente, canetas injetáveis utilizadas em tratamentos metabólicos e hormonais. Tudo isso faz parte de uma cadeia invisível de resíduos que cresce silenciosamente.

O grande problema é que a maioria das pessoas nunca recebeu orientação sobre o descarte correto desses materiais.

Quando um medicamento é jogado no lixo comum ou descartado no esgoto, ele pode atingir o solo, os sistemas de tratamento de água e o meio ambiente de forma geral. Estamos falando de substâncias desenvolvidas para produzir efeitos biológicos específicos. Elas não deixam de existir simplesmente porque foram descartadas.

Além da questão ambiental, existe também um ponto importante de saúde pública. O descarte inadequado de seringas, agulhas e materiais perfurocortantes pode gerar acidentes e exposição indevida a resíduos biológicos e farmacológicos.

Ao longo da minha trajetória profissional trabalhando com gestão de resíduos farmacêuticos e compliance regulatório, percebi que a informação ainda é uma das maiores barreiras. Muitas pessoas sequer sabem que já existem pontos de coleta em farmácias e unidades de saúde para recebimento de medicamentos vencidos.

Também existe pouco conhecimento sobre logística reversa, processo no qual fabricantes e distribuidores possuem responsabilidade dentro da destinação correta desses resíduos.

Mas talvez o ponto mais importante seja entender que sustentabilidade não começa apenas nas grandes empresas. Ela começa também nos hábitos cotidianos.

A forma como descartamos um medicamento dentro de casa também faz parte de uma cadeia de responsabilidade ambiental.

O futuro da saúde não depende apenas de inovação e tecnologia. Ele também depende da maneira como cuidamos daquilo que sobra depois do tratamento.

Discutir o descarte correto de medicamentos deixou de ser apenas uma pauta ambiental. Hoje, também é uma questão de saúde pública, responsabilidade coletiva e sustentabilidade. E esse caminho invisível dos medicamentos precisa começar a ser discutido agora.

*Renata Machado Lima Donnici é especialista em compliance regulatório e ambiental, com formação em Farmácia e mais de 12 anos de experiência na indústria farmacêutica; atua com gestão sustentável de resíduos farmacêuticos, governança, operações industriais e compliance ambiental; fundadora da MLD Pharmaceutical Waste Solutions, nos Estados Unidos, com foco em soluções sustentáveis para resíduos da área da saúde.