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Opinião

Thiago Barbosa Soares é analista do discurso, escritor e professor da UFT.

Thiago Barbosa Soares é analista do discurso, escritor e professor da UFT. Foto: Divulgação

Foto: Divulgação Thiago Barbosa Soares é analista do discurso, escritor e professor da UFT. Thiago Barbosa Soares é analista do discurso, escritor e professor da UFT.

Embora a crença pareça, muitas vezes, um dado íntimo e inato, uma convicção que brota do âmago do indivíduo, trata-se, na verdade, de uma elaboração eminentemente coletiva, cuidadosamente urdida pelos dispositivos sociais que governam a própria produção do que se convenciona chamar de verdade. A convicção pessoal não nasce em um vácuo interpretativo, é o produto de processos que obedecem a rígidas regras de exclusão, seleção e validação, tais como aquelas descritas por Michel Foucault ao analisar a “vontade de verdade” que perpassa as sociedades ocidentais (aqui fica a sugestão de leitura: “A ordem do discurso”, desse autor). A percepção comum de que alguém “passa a acreditar” em algo por um ato isolado de reflexão ou revelação desconsidera o intrincado arcabouço de instituições, discursos e práticas que atuam “silenciosamente” para delimitar o campo do dizível e do crível, tornando a adesão um fenômeno menos psicológico do que propriamente político.

Um dos exemplos mais eloquentes desse processo de construção dá-se no âmbito da memória histórica e da formação das identidades nacionais. Narrativas construídas sobre um passado glorioso ou trágico não são, em geral, o fruto de uma investigação desapaixonada dos fatos, antes, são o resultado de uma imposição discursiva reiterada por sistemas educacionais, monumentos cívicos e celebrações oficiais. Tome-se o caso paradigmático da constituição do herói nacional: os atributos de bravura e infalibilidade depositados sobre determinadas figuras históricas são rigorosamente fabricados por uma pedagogia que silencia aspectos inconvenientes da biografia enquanto hipervaloriza episódios convenientes. Essa técnica de produção de adesão incondicional a uma versão da realidade, que beneficia certas estruturas de poder em detrimento de outras, demonstra como a certeza histórica é, antes de tudo, uma questão de autoridade discursiva legitimada, e não de exatidão documental. Quanto mais um sistema de crenças é sancionado pelas instituições oficiais, como a escola, o museu, o parlamento, entre outras, maior a sua força de persuasão e mais imperceptível se torna a sua artificialidade constitutiva.

Na contemporaneidade, entretanto, a engrenagem produtora de crenças sofisticou-se exponencialmente, deixando as arenas tradicionais para infiltrar-se nos algoritmos do entretenimento e das redes sociais. O fenômeno da desinformação em massa, erroneamente atribuído a uma suposta “fragilidade moral” do indivíduo, revela na verdade a eficácia de uma nova maquinaria discursiva. Os regimes de verdade atuais, para usar novamente a terminologia foucaultiana, não mais exigem necessariamente a coerência lógica ou a prova empírica; operam pela repetição afetiva e pela criação de universos paralelos baseados em lealdades comunitárias digitais. Quando uma narrativa conspiratória espalha-se com a velocidade de um vírus, ignorando solenemente toda a factualidade contrária, o que se observa não é o triunfo do erro, mas a consolidação de um sistema de veridicção próprio (processo historicamente situado de fabricação e validação do verdadeiro), no qual a autoridade da prova cedeu lugar à autoridade do grupo (partido/movimento) ou do influenciador carismático. A crença, nesse cenário, revela-se como o principal pilar de uma identidade grupal, sendo menos um juízo sobre o mundo do que um emblema de pertencimento. É nesse direcionamento que o filósofo francês conceituou a noção de regime de verdade, não como um conjunto de mentiras deliberadas, mas como “o que força os indivíduos a um certo número de atos de verdade”, determinando a forma e as condições de efetivação desses atos, numa clara demonstração de que a verdade é sempre um efeito de poder e nunca um dado bruto da natureza.

As consequências práticas dessa compreensão são devastadoras para a noção iluminista de um público racional capaz de arbitrar entre o falso e o verdadeiro por meio do livre debate. Se as crenças são forjadas por condições estruturais e discursivas que escapam em grande medida à vontade consciente do sujeito, a simples oferta de informações corretas mostra-se um antídoto insuficiente contra a propagação do erro. O combate às crenças infundadas exige, antes de tudo, o enfrentamento das instituições e dos mecanismos de validação que lhes conferem autoridade, isto é, uma verdadeira desmontagem dos regimes de verdade que as sustentam. Compreende-se, portanto, que a adesão a qualquer princípio, seja ele científico, religioso ou político, deve ser lida como um sintoma da arquitetura social vigente, não como um dado da psique individual. Aceitar essa inversão epistemológica significa, por fim, reconhecer que transformar um sistema de crenças nocivo não se faz pela pedagogia exclusiva da razão, antes se faz pela substituição radical das estruturas que o alimentam e o legitimam. Enquanto essa operação não for realizada, o indivíduo permanecerá prisioneiro de uma convicção que julgava escolher, mas que, na verdade, já havia sido escolhida para ele.

*Thiago Barbosa Soares é analista do discurso, escritor e professor da Universidade Federal do Tocantins (UFT).