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Opinião

Foto: Designed by Magnific (www.magnific.com) - Freepik

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Vou ser direto. Quando a Clarice nasceu, eu me senti o piloto de um avião caindo sem nunca ter visto um manual de operação. Todo mundo me dava dicas sobre fralda, cólica, quarto trimestre, mas parecia que falavam grego com uma mãe imaginária do outro lado. E eu, no centro do furacão, recebendo informação que não foi feita pra mim. Essa é a paternidade desconectada que a gente não discute. 

O mercado de conteúdo sobre o primeiro ano do bebê foi desenhado por mulheres e para mulheres. Não é crítica, é constatação de quem viveu. A mãe recebe um combo completo: salto de desenvolvimento, janela de sono, pós-parto. O pai ganha um folheto de "ajudante" e um tapinha nas costas com alguém dizendo: "Segura a onda, parceiro." E a gente até segura, mas não é o mesmo que ter a orientação que nós precisamos. 

A paternidade ativa assusta. Não vem com tutorial. Estamos ali, esgotado, tentando não surtar no meio da madrugada enquanto o bebê chora e não fazemos ideia do que fazer. E o pior: o sentimento de solidão, porque ninguém fala sobre isso com você. A mensagem que chega no homem ou é técnica demais como a planilha de janela de sono ou somos tratados como ‘patetas’: "haha pai troca fralda errado". Falta o treinamento e o conhecimento de trincheira. 

Foi por isso que escrevi o Manual do Pai Foda. Não por ser gênio, mas porque senti na pele o buraco entre o que a gente precisa saber e o que chega até nós. Precisa-se de conteúdo que fale a língua do pai: direto, prático, sem romantização. Que admita que o primeiro ano é caos e que tá tudo bem não saber, o problema é a informação não chegar. 

O pai moderno, esse cara entre 25 e 40 anos, não quer mais ser coadjuvante. Quer estar presente, fazer a diferença, quer ferramentas reais. O problema é que as referências não chegam até ele porque foram embaladas pra outra pessoa. É vender chuteira de futebol pra quem precisa de sapato social. Serve? Tecnicamente. Mas não encaixa. 

A solução é simples: parar de tratar o pai como bônus e tratar como protagonista. Falar com o homem sobre paternidade não é "ajudar a mãe". Ajudante recebe ordens, a figura paterna quando preparada antecipa os problemas e protege a família. É construir base sólida para a casa inteira. Quando o conteúdo finalmente falar nossa língua, com honestidade e praticidade que a gente precisa, a desconexão vira presença consciente. 

Afinal, paternidade não é passeio no parque. É a melhor missão que um homem pode abraçar. 

*Lucas C. Maciel é especialista e professor em paternidade cotidiana. Cursou Everyday Parenting (Paternidade cotidiana): The ABCs of Child Rearing (O ABC da criação de filhos) (Yale University), APG - Programa de Gestão Avançada (Amana Key), entre outros. Autor de Manual do Pai Foda.